A cozinha dos imigrantes alemães, italianos e portugueses segue presente na Serra Gaúcha.
Os pães, frios e doces de um café colonial em Gramado carregam um pedaço da história da Serra Gaúcha. Cada receita mostra o jeito como os imigrantes plantavam, colhiam, conservavam e dividiam o que tinham. A culinária colonial segue sendo uma das formas mais vivas de manter essa memória por perto.
Três culturas na mesma região
A história de Gramado começou a tomar a forma que conhecemos a partir de 1875, com a chegada dos primeiros moradores de origem portuguesa ao alto da serra. No início do século XX, imigrantes alemães e italianos se juntaram a eles e trouxeram costumes, festas, idiomas e, principalmente, receitas. O município se emancipou em 1954, mas a identidade da cidade já estava formada bem antes, nas cozinhas das famílias da colônia.
Os colonos viviam da terra. Plantavam milho, trigo e uva, criavam porcos e vacas, cuidavam do pomar. Tudo o que chegava à mesa tinha origem conhecida, muitas vezes a poucos metros da porta de casa.
Receitas pensadas para atravessar o ano
A fruta da safra era cozida lentamente com açúcar e virava schmier, também conhecida como chimia, ou compota, como as de figo e de pêssego. A carne de porco, preparada nos meses frios, dava origem ao salame, à copa, ao lombo defumado e à morcela. O leite que sobrava se tornava queijo, que curava com calma até chegar ao ponto.
Sal, açúcar, defumação, frio e tempo eram os recursos disponíveis. Com eles, as famílias garantiam alimento para os meses de entressafra e criaram boa parte do que hoje chamamos de cozinha colonial.
Ingredientes da terra
A ideia de comida de verdade faz parte dessa tradição desde o começo. O milho da lavoura virava polenta e pão de milho, enquanto o trigo dava origem a farinha para os pães e para a cuca. A uva rendia suco, vinho e schmier, e as receitas seguiam o calendário da colheita e usavam o que cada estação oferecia.
Essa relação próxima com a origem dos alimentos é parte do que mantém a culinária colonial reconhecível até hoje: ingredientes simples, preparados com tempo e com respeito ao modo de fazer de cada família.
A tradição servida à mesa
Durante muito tempo, as receitas coloniais não estavam escritas. Eram ensinadas na prática, de mãe para filha, na beira do fogão. As medidas eram punhados e pitadas, e o ponto certo era reconhecido pelo olhar e pelo aroma.
Hoje são mais de 80 receitas coloniais, entre pães, frios, schmier, salgados, bolos, tortas e doces. Estão ali o salame, a copa, o queijo colonial, o pão de milho, a cuca, o apfelstrudel, a torta de bolacha alemã e o sagu, preparados a partir das mesmas referências que formaram a cozinha da colônia.
Manter essas receitas vivas é uma forma de preservar a história de Gramado. A cada visita, quem senta à mesa do Bela Vista prova um pouco do que os imigrantes construíram na Serra Gaúcha.